Artigo escrito

A irremediável burguesia religiosa 10

mar30


Se não me falha a memória, a frase é do Cazuza. ”A burguesia fede, mas tem os seus encantos”. Pela classificação mais ordinária dos cidadãos brasileiros, nasci na classe ”C”, isto é, no andar de baixo desta burguesia. Designado para viajar nos vagões mal cheirosos que ficam atrás do trem, minha infância não teve tantos mimos. Cresci sem automóvel (eu tinha 17 anos quando papai comprou um carro), sem frequentar lanchonete nos fins de semana e sem vestir roupa de grife. Não, nunca fomos pobres; tínhamos segurança alimentar e uma grande família com tios que chegaram junto na hora do sufoco.

Mas, para entrar no baile de adolescente na vesperal do Clube Náutico, eu precisava pular o muro; para chupar um picolé no intervalo da aula, tinha que ir para o colégio a pé e para comer maçã, adoecer.

Tornei-me um militante do patético alpinismo social. Em meu primeiro emprego, fixei a meta de comprar um fusca. Trabalhei como um remador de galé, mas um ano depois saí da loja montado nas quatro rodas alemãs – e mais trinta e seis prestações. Daí para a frente, continuei subindo. Cheguei ao mundo colorido da classe ”B”. Eu já não era um remediado pobretão. Cedo, também notei que as escadas religiosas poderiam me conduzir a patamares mais elevados.

Gastei a maior parte dos meus dias entre cristãos que faziam da religião o trampolim social que a sociedade lhes negava. Eu sabia que a lógica religiosa que eu aceitava de bom grado, e fortalecia, servia às aspirações de pequenos ricos.

Primeiro, nos Estados Unidos. Viajei extensivamente por quase todo o território e conheci a América profunda. Preguei tanto em igrejas grandes como em bibocas. Evitei, por interesse, notar como os pentecostais se esforçavam para mostrar que não eram os primos pobres de batistas e presbiterianos. Por duas vezes, participei do Concílio Geral das Assembleias de Deus. Não há como descrever o desfile das vaidades que vi nessas reuniões. Pelos corredores lotados com mais de quinze mil pastores, mulheres borradas de maquiagem ostentavam roupas caras e os maridos batalhavam para ganhar a placa de ”Maior Contribuinte de Missões Mundiais”.

Depois que voltei ao Brasil, também procurei cegar para o que via. Eu não queria notar como líderes denominacionais usavam de toscas manipulações para se manterem temidos como caudilhos. Pastores oriundos das mesmas camadas sociais que eu, se sentiam desafiados a passar pelo malho apertado da peneira social. Alguns, logo revelavam sinais exteriores de riqueza, fama, glória. Isso lhes motivava à luta e eu, confesso, queria ser como um deles. Os ungidos apareciam ao lado de políticos famosos, viajavam para Israel, abriam postos missionários além-mar.

Paulatinamente, distanciei-me desse mundo que passou a imprimir cartão de visita com o titulo de Apóstolo. Depois, com as mega-empresas religiosas, quando o cacife cresceu, e eu decidi sair de vez. Os verdadeiramente ungidos passaram a desfilar de BMW, helicóptero e jatinho. Resolvi não desejar esses brinquedinhos que patenteiam a bênção de Deus.

O mundo evangélico está contaminado por esta espiritualidade pequeno-burguesa. Animado pela lógica de que servir a Deus é proveitoso, o crente parte em busca do macete que abre porta de emprego, faz passar no vestibular, resolve causas na justiça, ajuda nos concursos públicos e aumenta salário. Para ele, a prova de que Deus existe está nesses pequenos milagres; e o melhor testemunho da verdade da fé, na capacidade de mover o braço do Todo-Poderoso.

Quase fui linchado quando afirmei, em um estudo bíblico, que Deus não abre porta de emprego. Sofri crítica por dizer, baseado no Sermão da Montanha, que Jesus ensinou aos filhos de Deus a não pedirem coisas materiais. A princípio, não entendi a reação virulenta. Por que tamanha resistência à proposta de espiritualidade que abre mão das intervenções divinas para se dar bem na vida? Mas, quanto mais eu lembro das ambições que povoaram o meu coração juvenil, dos corredores enfatuados daquelas convenções americanas e da breguice dos evangelistas novos-ricos, reconheço: não se desvencilha com facilidade das orações milagrosas que prometem os encantos da burguesia, sem feder.

Ricardo Gondim
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10 comentários para esta postagem

  1. Lucas Cristofali disse:

    sensacional e triste, mais verídico impossível!

  2. uma verdade nos dias de hoje… que Deus tenha misericórdia de nós!

  3. ANDERSON TILP disse:

    Nada a Dizer, só acho que se os Filhos do Diabo podem andar de Avião Particular, Carros Importados! Pq não os filhos de Deus!Não podemos todas as coisas em Cristo?

    Ageu 2:08 – Tudo é de Deus Brother!

  4. Anderson Lima disse:

    É uma pena que os lideres da igreja não olhe para o exemplo de Cristo. Veja, Ele nasceu pobre e terminou seu ministerio na terra pobre, segundo o nosso padrão humano (coisas materiais), mas a revolução que ele provocou, suas palavra, estão vivas até hoje, e esse é o verdadeiro valor (RIQUEZA). Os primeiros cristãos vendiam tudo o que tinham e não acumulavam riquezas. Na verdade, os dias de hoje nos mostra o quanto estamos longe do mestre.

  5. Lucas Cristofali disse:

    não é uma questao de poder ou nao poder, mas é uma questão de prioridades e benefícios. tem tanta coisa pra se fazer, mas é mais importante andar com o carro do ano do que fazer algo relevante com seu dinheiro, algo que ajude no Reino.

  6. Hugo Ramalho disse:

    já vi este filme ! Acredito que ele tenha razao, a teologia da prosperidade se tornou um grande problema nas nossas igrejas, mas nao podemos peder o foco de contra quem estamos lutando. Nossa luta é contra o diabo e sua corja e nao contra as outras partes do nosso corpo que possam estar doentes. Que nosso Deus possa ter misericordia tanto deles como de nós para que possamos combater o bom combate.

    Deus seja louvado ! ! !

    Ps. Como dizem aqui na Alemanha: Respeito !!! o site esta muito legal…

  7. Gustavo Pepineli disse:

    Tem muita gente vivendo Deus como se Ele fosse o papai noel, onde vc pede o brinquedo e ele te dá, mas a verdade não é essa… Deus tem o plano dEle, a gente precisa assumir nossa posição e confiar, pois Ele tem o melhor! E no Seu tempo… Não devemos questionar ou retrucar, apenas entender que Ele está no comando, não nós!
    “Buscai primeiro o Reino de Deus e tudo mais vos será acrescentado” (Mt 6,24-34)
    A gente se preocupa demais em “querer”, sendo que a primeira preocupação deve ser “servir”, “falar” de Deus, de Sua bondade!!!!!

  8. Regina Valler disse:

    Olá a todos!

    Só tenho uma coisa a dizer: quero perder a minha vida, quero arriscar (Lucas 17,33). A única coisa que vale a pena é viver em Cristo, então não tenho interesse nenhum em ter o que os “Filhos do Diabo” “jatinho”, mansão (…) uma vida muito conservada, muito sertinha e muito óbvia para qualquer ser humano que não quer nenhum comprometimento com nosso Pai.

    “quem tentar conservar (ou ainda salvar, preservar) sua vida perderá, e quem perder a sua vida preservará” Lucas 17,33

    Isso é queria ser livre!

  9. Regina Valler disse:

    Olá a todos!

    Só tenho uma coisa a dizer: quero perder a minha vida, quero arriscar (Lucas 17,33). A única coisa que vale a pena é viver em Cristo, então não tenho interesse nenhum em ter o que os “Filhos do Diabo” têm, “jatinho”, mansão (…) Uma vida muito conservada, muito sertinha e muito óbvia para qualquer ser humano que não quer nenhum comprometimento com nosso Pai.

    “quem tentar conservar (ou ainda salvar, preservar) sua vida perderá, e quem perder a sua vida preservará” Lucas 17,33

    Isso é queria ser livre!

  10. Regina Valler disse:

    Ahhh muito profundo o post! UAUU

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